◉Atualizado em 01/08/2026 · 16:35 (BRT)
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ESPECIAL P/ ZACH Aos 50 anos e com uma carreira estabilizada, a arquiteta e urbanista Giuliana de Freitas decidiu que era o momento de iniciar uma nova etapa profissional. A motivação veio em dose dupla: a percepção de que os clientes a procuravam em momentos decisivos de suas vidas e um esgotamento mental e físico.
“Ficou claro para mim que, ao longo de 27 anos de atuação nos setores privado e governamental, muitas pessoas não precisam contratar um projeto logo no começo. Elas necessitam de clareza, saber se a decisão é prudente e quais passos são necessários antes de comprometer dinheiro, tempo e energia. Somado a isso, no ano passado, 2025, eu completei 50 anos e ‘ganhei’ de presente um burnout. Então, me veio a seguinte pergunta na minha mente: o que eu quero para a minha vida daqui para frente?”, explica Giuliana.
O cansaço físico e mental trouxe a certeza de que deveria investir em algo que pudesse aumentar o contato com as pessoas e agregar os seus conhecimentos e talentos. Com a estruturação de um plano e de um método, lançou o empreendimento Ativo Urbano, em Brasília (DF).
A empresa se dedica à consultoria estratégica para análise de viabilidade de glebas e de empreendimentos urbanísticos. O objetivo é de organizar a decisão do cliente com método, critério e visão técnica, possibilitando a compreensão de riscos, limites, potencialidades e passos importantes antes de qualquer avanço. Com a nova etapa profissional, Giuliana se sente realizada profissionalmente e, melhor, pronta para construir sua longevidade financeira, isto é, edificar um patrimônio que a sustente ao longo de sua vida.
“A longevidade financeira é um dos meus propósitos desta consultoria que fiz nascer. A ideia é de construir um patrimônio intelectual e a possibilidade de criar uma estrutura que, um dia, possa se sustentar sem depender, exclusivamente, de mim. Penso muito em quando eu não quiser mais ou não puder trabalhar mais com a mesma garra do tempo atual. E quero que esta empreitada seja algo tranquilo na minha vida”, sintetiza a arquiteta e urbanista.

✶2,7 milhões de mulheres +55 são empreendedoras no Brasil, segundo o Sebrae
O que é a ‘economia platinada’
A história de Giuliana não é a única. Economistas, sociólogos e psicólogos têm observado um crescimento no número de mulheres que, vivendo a maturidade, decidem transformar a experiência etária em trampolim para novos negócios.
Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 2,7 milhões de mulheres acima dos 55 anos são donas de novos negócios. Os dados, explica Layla Vallias, especialista em economia prateada e cofundadora da Data8, no Brasil, traduzem a realidade da vida adulta próxima à idade dos 50 anos.
É nessa fase que o ser humano encara uma mudança psicológica profunda, tornando-se mais seletivo socialmente e emocionalmente. Na prática, comenta Layla, isso significa que a pessoa na meia-idade deixa de se preocupar com a aprovação social e se torna mais indiferente à opinião alheia, focando no próprio prazer e no autoconhecimento.
“No começo, reduzia o valor dos meus serviços por medo do que as pessoas iriam pensar. Precisei aprender a defender que o meu conhecimento, tempo e experiência têm um preço e, se alguém não quer ou não pode pagar, infelizmente, não sou eu quem tem de arcar com essa situação”, afirma Giuliana, que deixou de aceitar serviços para evitar desgaste e frustração.
Esta mudança psicológica é embalada por outro fenômeno, o da economia platinada. O termo é descrito pelo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2025 como a movimentação econômica ativa das pessoas de meia-idade. Já para a União Europeia, a economia platinada é a soma das atividades econômicas que atendem às necessidades das pessoas com 50 anos ou mais. Isto inclui produtos e serviços adquiridos por esse segmento de consumidores e as consequências econômicas decorrentes desses gastos.
No Brasil, a economia platinada responde pela movimentação de R$ 1,8 trilhão por ano. O valor corresponde ao consumo anual das famílias lideradas por pessoas com mais de 50 anos e responde por 24% de todo o consumo privado nacional, de acordo com o Estudo “Brasil Prateado”, da Consultoria Data8. O dado expressivo se deve ao fato de que, nessa idade, as pessoas se encontram no auge da carreira, ou seja, seguem trabalhando, consumindo e poupando.
Além de manter a economia em funcionamento, os consumidores platinados têm como característica o desejo de investir em educação continuada, a recusa pela ideia de inatividade e a manutenção da autonomia, saúde preventiva e segurança.
Esta é a história da fisioterapeuta Carmem Rita, 53 anos, de Florianópolis (SC), que decidiu empreender após participar de um evento de empreendedorismo feminino, o Dellas Summit. Foi quando percebeu ser possível abrir o próprio negócio aliando-o à sua experiência profissional e à percepção sobre a clientela.

“Hoje, tenho a certeza de que empreender é uma forma de ampliar o impacto do propósito que escolhemos viver. A resposta dos nossos pacientes confirmam que sempre estivemos no caminho certo: aqui, eles encontraram uma nova forma de viver o cuidado com a saúde”, afirma Carmem Rita, que empresta seu nome à clínica de pilates e bem-estar que fundou. Além de aplicar seus conhecimentos em prol dos clientes, a meta da fisioterapeuta é que seu negócio se mostre inovador e sustentável a longo prazo, uma das bases da longevidade financeira.
“Não penso em aposentadoria como um ponto final, mas na profissionalização de gestão, acompanhamento de indicadores, organização financeira e diversificação das fontes de renda. A minha empresa é meu maior patrimônio e tem capacidade de existência para transformar vidas por muitos anos”, garante Carmem.
E que ninguém duvide de Carmem. Segundo análise econômica do Mauri da Silva, economista, as mulheres empreendedoras de 50+ têm grande potencial de cruzar variáveis de idade, gênero, renda, responsabilidade familiar, experiência profissional, redes de cuidado e demanda por serviços para longevidade.
Mauri diz que este protagonismo deriva da experiência acumulada, compreensão de necessidades e forte participação na economia do cuidado. Em razão do público feminino ser mais propenso a observar lacunas em saúde, alimentação, moradia, cuidado domiciliar, educação, bem-estar e serviços personalizados.
“As mulheres 50+ não apenas consomem, mas criam soluções. Formalizam cuidados, oferecem consultorias, produzem produtos de alimentação saudável, fazem moda adaptada, proporcionam turismo especializado, educação continuada, terapias, tecnologia assistiva e serviços locais”, explica Mauri.
E, na perspectiva preditiva, esse segmento tende a ganhar ainda mais importância. “Basta perceber o envelhecimento da população, a maior presença feminina na chefia de domicílios e a crescente demanda por cuidados avançam ao mesmo tempo que desejam a longevidade financeira”, complementa o economista.
Longevidade financeira é motor para mudança profissional
Tempo de vida, geração de renda e organização do patrimônio. Esta é a base da longevidade financeira, conceito que têm ganhado espaço à medida que os estudos demográficos apontam para o aumento da velocidade de envelhecimento da população e da expectativa de vida. Em um país cuja expectativa de vida atual é de 76,6 anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e será de 79,7 anos em 20 anos, se preocupar com a longevidade financeira faz todo o sentido.
“Para mim, longevidade financeira é manter a autonomia, continuar aprendendo, permanecer ativa e fazer com que o meu negócio evolua junto comigo ao longo da minha vida. Para isso, um negócio deve ser sustentável, relevante e capaz de crescer junto com você”, ensina Karin Camargo, 65 anos, artesã de costura criativa e criadora de conteúdo.

Karin começou a se preocupar com a longevidade financeira após a aposentadoria precoce, por conta de uma fratura. Aos 49 anos, e acostumada a enfrentar desafios, iniciou um negócio próprio em São Paulo, onde reside. O sonho veio embalado por um propósito maior: mostrar que a população 50+ representa um enorme potencial para o Brasil.
“Estamos vivendo mais, temos experiência, conhecimento e ainda muito a contribuir para a sociedade e para a economia. Quero ajudar a mudar este olhar, mostrando que longevidade, também, é sinônimo de produtividade, inovação e propósito”, afirma Karin, que oferece ao público formações com cursos, palestras e conteúdos nas temáticas de empreendedorismo, inclusão e criatividade.
“O artesanato entrou na minha vida como uma forma de recomeçar. No início, uma terapia para recuperar a autoestima e redescobrir minhas capacidades. Depois, percebi que poderia se tornar uma profissão e uma fonte de independência financeira. Eu não queria que a aposentadoria fosse o fim da minha história profissional. Queria continuar aprendendo, produzindo, empreendendo e, principalmente, mostrar para outras pessoas que nunca é tarde para começar tudo novamente”, comenta a artesã.
Apoiada pelo marido e graduada em administração e economia, Karin afirma ter percebido que longevidade financeira, empreendedorismo e motivação pessoal andam juntos. “A maturidade que me mostrou que empreender não é apenas vender um produto, mas ter um propósito e gerar impacto positivo na vida das pessoas. Talvez este é o maior diferencial de quem decide empreender depois dos 50 anos”, defende Karin.
Ao contrário da aposentadoria, a longevidade financeira amplia a visão para vidas mais longas com diferentes trabalhos, novos aprendizados, pausas sem preocupação e atividades diversificadas em cada período da existência. Essa forma de viver está relacionada à qualidade de vida, definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um conceito que abrange bem-estar físico, psicológico, relações sociais, nível de independência e o meio ambiente.
Atentas a esse público, seus desejos de vida e sua capacidade de consumo, empresas e instituições têm procurado estreitar relacionamento com consumidores, empresários e empreendedores 50+, inclusive como estratégia de negócio de longo prazo.
“Esse tipo de relacionamento gera fidelização, recorrência e um crescimento sustentável para o negócio. Por isso buscamos oferecer soluções simples, transparentes e adequadas às necessidades financeiras de cada cliente. O foco é facilitar a experiência financeira com clareza, praticidade e segurança”, explica Brunna Lopes, superintendente de Marketing do Banco Mercantil.
E com o empreendedorismo em alta entre a população feminina 50+, o caminho tem sido o da personalização. “É pensar em soluções de crédito alinhadas à realidade dos clientes com taxas competitivas”, complementa a superintendente.
Experiências profissionais contribuem para estruturação dos novos negócios
Há quatro anos, a administradora de empresas Andrea Bianca Alves da Silva Oliveira, 52 anos, de Maceió (AL), resolveu unir sua bagagem de vida e sua formação em Administração para abrir seu próprio negócio. A loja de roupas femininas, que opera em ambiente online, veio do objetivo de proporcionar emoção, reconhecimento e chances para cuidar da saúde com mais atenção e qualidade. Andrea tem fibromialgia, e a rotina como funcionária registrada dificultava os cuidados com a saúde.
“Demorei para tomar a decisão de ter algo meu, um negócio para gerir do meu jeito e com as minhas metas. Mas, cada vez mais, percebia que este era o melhor caminho para a minha vida. Mesmo ouvindo frases para me convencer do contrário, de que se não desse certo, não tinha mais como voltar ao mercado de trabalho. No fim, decidi o que era melhor para mim sem me importar com a opinião das pessoas”, conta Andrea, proprietária da AB Store.

Tal como Andrea, Loise Lisete Kleemann Della Senta, 61 anos, de Campo Grande (MS), viu no empreendedorismo uma forma de renovar sua jornada profissional. Há 11 anos, decidiu encerrar seu ciclo como professora e abriu uma confeitaria, a Schokolade. Na ocasião, a experiência de vida e a certeza que estava cedo para se aposentar foram o combustível necessário para que Loise, junto de seu esposo, iniciasse o novo negócio.
“Resgatei minhas origens para dar sentido ao meu negócio e, assim, fui estruturando com a minha essência e história de vida. Os meus maiores apoiadores sempre foram meu marido, filhos e irmãos. Aceitaram o desafio de não me ter próximo a todo momento, porque empreender exige muito tempo do meu cotidiano”, afirma Loise.
Mesmo diante dos desafios, Loise não se arrepende da decisão, pois tem sido feliz ao longo da jornada e tem percebido que a longevidade financeira é viável. “O exercício empreendedor tem me mostrado que é possível oferecer produtos excepcionais, desde que busque ferramentas de auxílio em cada etapa da gestão da confeitaria, para proporcionar a sustentação do negócio”, argumenta.

Para a psicóloga e geógrafa Linia Maria Bilac Garrone, o exercício profissional das mulheres 50+ para o setor de economia é relevante, tanto do ponto de vista social quanto simbólico.
“Todas as vezes que uma mulher 50+ se coloca em uma condição de se apropriar de talentos e dons em face da economia, seja qual for a tipologia econômica, impacta de forma muito importante na sociedade a própria existência deste indivíduo. E é claro que, impactando a individualidade, a subjetividade deste indivíduo afeta, de alguma forma, na sociedade como um estímulo”, afirma Linia.
Foco no presente e menor ansiedade fomentam negócios de empresárias 50+
Ao entrar na idade madura, a geração do 50+ começa uma ascensão na vida conhecida como “Curva em U da Felicidade”. O termo, cunhado e documentado pelos economistas David Blanchflower e Andrew Oswald, se refere a uma descrição social e psicológica de uma etapa da vida caracterizada pela considerável da ansiedade, melhor aceitação da sua própria realidade, busca por estabilidade emocional e manutenção do foco no presente.
Seria o início da subida do “U”, letra escolhida para identificar os diferentes graus de satisfação do ciclo humano durante a vida adulta. Enquanto o início da vida adulta, o topo esquerdo do “U”, é marcado por vitalidade e expectativas futurísticas, atingir sua curva significa encarar estresse financeiro, pressão profissional, crises existenciais e frustrações, segundo Blanchflower e Oswald. A ascensão da letra, e da satisfação, coincidiria com o começo da vida idosa.
O realinhamento de vida é exatamente o que as mulheres empreendedoras desta reportagem buscaram para iniciar o próprio negócio. Entretanto, observa a psicóloga e geógrafa Linia Maria Bilac Garrone, a felicidade não pode ser vista e validada como um prodígio.
✶47,5% é o percentual estimado da população brasileira com mais de 50 anos em 2056
“Não podemos pensar na felicidade como um fenômeno, porque, no campo da subjetividade, a felicidade está associada às condições materiais existentes do indivíduo. É uma discussão dialética que passa por uma percepção histórica. Falar em felicidade e em bem-estar sem considerar as desigualdades sociais, econômicas e ambientais é superficial”, contrapõe.
A despeito destas diferenças, a psicóloga Laura Carstensen afirma que pessoas de 50+ tendem a buscar a felicidade imediata. Segundo ela, que é autora da teoria “Socioemotional Selectivity” (em português, seletividade socioemocional), este público contribui com retorno na economia pela via da estabilidade financeira e trabalha por prazer.
O mapeamento do relatório “The Silver Economy” de 2018, da Comissão Europeia, corrobora esta percepção. Segundo o documento, o público 50+ busca investir fortemente em qualidade de vida, lazer ativo e saúde de prevenção. Estes pilares estimulam um novo caminho profissional, por exemplo, e são descritos no conceito científico da “Curva em U da Felicidade” quando as pessoas voltam a progredir na vida adulta, na fase madura.
Crescimento da curva de envelhecimento acelera economia platinada
Cerca de 21% da força de trabalho brasileira têm 50 ou mais. Isto representa 21,8 milhões dos 108 milhões de pessoas ocupadas ou em busca de empresa, segundo resultado da Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados de base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, de junho de 2026.
Considerando as projeções de longo prazo no Brasil, a partir do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o número tende a crescer ainda mais. Em 2036, 35,1% da população terá mais de 50 anos, e, em 2046, 41,7%, chegando a 47,5% em 2056.
As projeções ajudam a compreender um fenômeno dentro da economia: o empreendedorismo platinado. Dados do Sebrae Nacional, de abril de 2026, mostram que no Brasil há 4,5 milhões de empreendedores de 60+. É uma marca histórica no país, segundo a instituição, e que acompanha movimento similar no mundo.
Na União Europeia, a “Silver Economy” é uma diretriz econômica desde 2015. O conceito, cunhado no Japão desde 1970, se refere ao conjunto de produtos, serviços e atividades econômicas voltadas para as necessidades e desejos do público com 50 ou 60 anos ou mais. Deste conceito deriva outro: a economia da longevidade, que á a soma de todas as atividades econômicas relacionadas ao universo das pessoas de 50+. A atenção a este público se justifica pelo seu perfil.
“É uma população com poder de produtividade e renda crescente, com ganhos de 30% nos rendimentos do trabalho e maior participação no mercado de trabalho, mitigando parte do colapso demográfico. Além disso, o volume massivo de poupança acumulada por estes indivíduos é o que está sustentando a liquidez global e exercendo pressão baixa sobre as taxas de juros internacionais”, explica o economista Mauri da Silva.
No Brasil, a economia platinada corresponde em 24% do consumo privado e público em 2024, movimentando R$1,8 trilhões, segundo Layla Vallias, especialista em economia prateada e cofundadora do Data8, com base no estudo Mercado Prateado da Data8.
Na economia platinada, seis frentes se mostram promissoras: saúde de prevenção, cuidados de longa duração, serviços financeiros responsáveis, emprego e requalificação para 50+, moradia e mobilidades adaptadas e consumo experiencial livre de estereótipos. Olhar para essas frentes, ofertando propostas de serviços e produtos, é atender a oportunidades reais.
“O Brasil envelhece mais rápido do que a sua oferta de mercado. Assim, as oportunidades reais dependem menos de vender para idosos e mais de aplicar dados, com inteligência artificial, para antecipar demandas, mitigar erros e ampliar a autonomia para transformar longevidade financeira em infraestrutura econômica. A verdadeira inovação é migrar de um mercado reativo para um mercado que planeja a longevidade”, recomenda o economista Mauri da Silva.