◉Atualizado em 06/08/2026 · 10:54 (BRT)
As entrelinhas dos dois álbuns já lançados da era “Equilibrivm” ressaltam uma inflexão na carreira de Anitta. Não só do ritmo frenético de assimilar tendências e transformar o funk em commodities para o cenário global, mas da balança entre os holofotes e a vida pessoal. A artista se volta a reunir e costurar questões de suas próprias vivências com sua espiritualidade, sobretudo os preceitos do candomblé, como um refúgio diante das escolhas nas encruzilhadas da vida.
A epopeia particular de Anitta se aproxima de orixás, falanges e rituais, busca acalento no sagrado feminino e abraça as tradições festivas populares onde o sincretismo se faz presente. Ao reconhecer e enaltecer esses vínculos com a brasilidade profunda, a cantora encontra, no próprio lugar de ser e estar, alicerce para potencializar sua persona artística.
As temáticas da era “Equilibrivm” desde o lançamento não foram assimiladas apenas no que aborda a espiritualidade. “Deus Existe”, com o grupo Ponto de Equilíbrio, foi adotado por parte do público como uma espécie de hino na defesa da redução da jornada de trabalho, pauta da PEC 6×1. Em outro momento, a artista reflete sobre machismo, autocuidado e amor próprio.
✶“Não aceite se partir em pedaços para caber num mundo que nunca te quis por inteira”, diz a entidade Pombagira a Anitta, num trecho que ecoou nas redes.

Ainda que o imaginário da MPB e do samba seja historicamente inspirado por referências a orixás, rituais e guias, chama atenção o gesto de Anitta assumir religiões de matriz africana em público, num Brasil onde giras e terreiros seguem alvo de racismo e intolerância religiosa.
Também é nesse léxico popular que Anitta soma outros talentos ao repertório. Com Los Brasileiros e Papatinho, parceiros de longa data, mistura atabaques, ijexá, funk e eletrônica no som que batizou de “macumbeats”. É o terreno de parcerias como Shakira em “Choka Choka” e Brô MC’s e Katu Mirim em “Oke”.
Neste aspecto, as habilidades de curadoria da artista trazem feats da cena contemporânea e regional à MPB mais basilar, seja na sonoridade característica de Marina Sena, Liniker, Luedji Luna e Ebony, seja no repertório de Melly, King Saints, Rincon Sapiência, Os Garotin, Ponto de Equilíbrio e Emanazul, mesclando rap, samba, reggae e até um mantra.
Anitta reúne outras parcerias musicais no segundo álbum, juntando na mesma faixa Letícia Fialho e Maria Bethânia, além das colaborações com Mart’nália, Alceu Valença, Mestrinho, Alexandre Carlo, Grupo Ofá e MC Tha. O aceno para o mercado global é pontual. As inéditas “Pinterest” e “So Much Love” misturam samba e rasteirinha, respectivamente, com nuances de R&B, ao lado de versões intimistas, em espanhol, de clássicos do cancioneiro brasileiro, caso de “Várias Queixas” e “Azul”.
A artista ainda garimpa referências mais antigas da música brasileira. Um sample de “Canto de Ossanha”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, aparece em “Mandinga”, enquanto “Cordeiro de Nanã”, do grupo Os Tincoãs, ecoa na produção do álbum.
É para Carmen Miranda, porém, que Anitta reserva espaço para uma alegoria íntima. Um trecho de “Taí” (Joubert de Carvalho, 1930) ressurge reimaginado na bossa melancólica “Pra Você Gostar de Mim”. O aceno ao primeiro sucesso da “pequena notável” serve de paralelo ao próprio arco pessoal de Anitta, elo personificado nos visuais assinados pela diretora criativa Nídia Aranha.
O imaginário ancestral e o Brasil em Anitta
“Equilibrivm” consolida essa colaboração entre as duas garotas do Rio. Natural da baixada fluminense, a diretora criativa desponta como um dos principais nomes da interseção entre moda, artes visuais, música, ativismo e pesquisa. No material de apresentação do álbum, Nídia conta que desde o começo havia a ideia de desenvolver o máximo de coesão entre as músicas e os visuais, inspirada na cultura e mitologia brasileiras. “Cada símbolo carrega um significado vívido e uma memória ancestral”, afirma a diretora.
É esse mesmo Brasil que atravessa Anitta desde o início do álbum, agora traduzido em forma visual. O mosaico de sonoridades dialoga com festas e tradições populares que têm a espiritualidade cotidiana como matéria-prima, da Folia de Reis ao Bumba Meu Boi, passando pela cultura dos povos originários, o maculelê e as giras.
Tanto os visuais da primeira quanto da segunda parte da era “Equilibrivm” foram produzidos pela Ginga Pictures. Os visuais interconectados do álbum lançado em abril foram dirigidos por Manuel Nogueira, com o set de gravação principal montado nas paisagens da região do Ibitipoca, santuário ecológico e refúgio de regeneração na Serra da Mantiqueira, um escape da lógica de produção da indústria pop e das métricas de atenção, em favor de um processo contemplativo.
Enquanto a própria natureza do lugar antecipa o tema de reconexão e cura que atravessa “Equilibrivm”, onde espiritualidade e ancestralidade se sobressaem no plano físico, o segundo ato concentra essa narrativa de cura no plano íntimo. Os sets do curta que acompanha a sequência, dirigidos pelo trio Nídia Aranha, Felipe Sassi e Boy Princess, mostram Anitta em perspectiva.
O estúdio Arado, coletivo mineiro reconhecido pelo trabalho de pesquisa sobre a cultura popular brasileira, assina a identidade visual do álbum, incluindo os desenhos que atravessam o projeto. De acordo com a cantora, em um post no X (ex-Twitter), Anitta recebeu de presente um calendário ilustrado pelo estúdio, com ritos mágicos do cotidiano brasileiro, e dessa sincronia estética surgiu o convite.
Essa representação também é vestida no figurino, assinado no styling por André Philipe e Daniel Ueda. Peças de estilistas de diferentes regiões do país, casos de Poliana Brilhante, Helô Rocha, Amir Slama, Another Place, Day Molina e D.Lyvar, referenciam essa brasilidade e valorizam a produção artesanal, com a utilização de materiais pouco convencionais na moda, como conchas, sementes, metais, madeiras, palha e crochê.