◉Atualizado em 08/08/2026 · 13:03 (BRT)
Bauru (SP), que acaba de completar 130 anos, carrega um imaginário próprio, quase de cartão postal. Quem não conhece a cidade do centro-oeste paulista costuma associar o nome ao sanduíche de rosbife, à gíria “baurets” — que Os Mutantes ajudaram a espalhar no último álbum com Rita Lee nos vocais — ou aos alagamentos na Avenida Nações Unidas que costumam repercutir na TV. E é assim desde os primórdios da cidade, como aborda o historiador Edson Fernandes em seu novo livro “Bauru, uma outra história” (Editora Mireveja). A questão é que alguns desses pontos são o que se chama de mitos fundadores.
Um dos causos mais conhecidos é sobre a própria origem. Alguns vereadores teriam adiantado o horário da sessão legislativa para transferir a sede municipal de Espírito Santo da Fortaleza para o distrito de Bauru. Outro notório envolve o empresário João Henrique Dix, que teria cometido suicídio para ser o primeiro a ser enterrado no cemitério para o qual doou o terreno. Essas histórias sobre os primórdios da cidade não encontram respaldo sólido nos documentos disponíveis. Na linguagem de internet, poderiam ser classificadas como uma grande fic.
“Há uma Bauru anônima que precisa ser conhecida. E o trabalho daqueles que têm como ponto de partida uma outra abordagem é fazer vir à tona essa outra história”, conta o historiador Edson Fernandes em entrevista à ZACHPOST.
Reexaminar a história da cidade no contexto atual também permite um escrutínio sobre omissões e apagamentos. E exige considerar que parte da materialidade histórica carrega uma representação de passado imaginado. Um exemplo é o convívio com a população indígena. Por muito tempo, a violência que marcou a consolidação das cidades foi recontada reforçando a dinâmica de vencedores e perdedores.
“A violência que caracterizou não só as relações entre indígenas e não indígenas, mas também entre os moradores do núcleo urbano ou das zonas contíguas”, completa Fernandes. Confira a entrevista completa a seguir. Alguns pontos da conversa foram ajustados por questões de edição.
PERGUNTA: Qual foi o ponto de virada ou o documento específico que fez você perceber que a história “oficial” de Bauru precisava ser recontada?
RESPOSTA: Foi quando li toda a documentação sobre a mudança da câmara, e portanto da sede da vila, de Espírito Santo da Fortaleza para o distrito de Bauru. As lideranças de Fortaleza entraram com um recurso de apelação e, em nenhum momento, citaram o episódio que ficou conhecido na cidade como “o adiantamento do relógio”. Foi então que percebi que podia se tratar apenas de um mito de fundação.
P: Você optou por uma reconstrução minuciosa baseada em atas, jornais de época, registros de cartório e documentação etnográfica. Por que a escolha por esse método tão focado na fonte primária e qual foi o documento mais surpreendente que você encontrou nesse processo?
R: “A fonte primária é onde tudo começa, onde nasce o fato histórico e dela derivam as várias interpretações ao longo do tempo. Nenhuma fonte é perfeita, há limitações e lacunas, por isso devem ser lidas à luz de outras fontes e do conhecimento do pesquisador. O acesso à fonte primária permite uma leitura mais rigorosa da bibliografia existente. O documento que mais me impactou foi o inquérito policial feito em decorrência do ataque sofrido pela expedição do monsenhor Claro em tentativa de contato com os indígenas Kaingang, da qual resultou a morte dele e de dois indígenas Guarani, no rio Feio, em 1901”.
P: O que mais te incomodava nas narrativas que se perpetuaram sobre Bauru ao longo dos anos a ponto de motivar a escrita do livro?
R: “Apesar de haver estudos acadêmicos que tratam de aspectos específicos da história de Bauru, boa parte da bibliografia existente é feita por memorialistas, com abordagens que enfatizam as figuras “heroicas” da formação da cidade. Minhas pesquisas procuram abordar temas que nunca foram tratados ou que o foram de maneira superficial, como o trabalho escravizado, os povos originários, os conflitos e os trabalhadores da ferrovia Noroeste. Como eu disse, há trabalhos acadêmicos sobre alguns desses temas, mas era necessário, penso eu, dar maior divulgação a esses outros personagens. Os livros, nesse sentido, têm maior alcance”.
P: Como a documentação etnográfica te ajudou a dar voz e resgatar a presença das populações marginalizadas que construíram Bauru na prática?
R: “O passado não está morto, petrificado, fossilizado. Está sempre em construção pelas sociedades que se debruçam sobre ele. Cada documento, cada visita a uma aldeia, cada conversa me ajudaram a compor uma visão do passado com a inclusão dos “de baixo”, mesmo que as fontes privilegiem os “de cima”. Ir ao local do ataque sofrido pela expedição do monsenhor Claro me deu uma perspectiva diferente sobre o episódio. Ler os relatórios da Comissão Geográfica e Geológica de 1905, que descrevem a presença de aldeias e objetos Kaingang, e analisar as fotos produzidas pela mesma comissão abrem outras perspectivas ao olhar. Inquéritos policiais são riquíssimos, pois dão voz aos “desvalidos”, mesmo intermediados por uma autoridade policial. Enfim, o trabalho de campo, aliado a documentos pouco explorados, amplia o alcance da visão do historiador, sempre lembrando que o conhecimento do passado não se confunde com o próprio passado”.
P: Qual é a sua pretensão com “Bauru, uma outra história”? Você enxerga este livro como um acerto de contas com o passado ou como uma ferramenta para pensar o futuro da cidade?
R: “Eu não tinha grandes pretensões com o livro, mas, quando mandei para a editora, ele foi crescendo com o olhar da equipe e acabou “fugindo” do meu controle. Meu prazer é poder dizer que, com esse e outros livros que já escrevi, consegui fazer com que mais pessoas tivessem um outro olhar para o passado da cidade, que vissem que ela não foi construída apenas por aqueles que dão nome às ruas e logradouros, mas por um número incalculável de pessoas que viveram e morreram no anonimato, mas cujo sangue e suor ficaram na terra. Penso que o mérito foi dar maior visibilidade aos povos originários e aos negros escravizados, mas ainda falta muito, como uma história com maior inclusão das mulheres”.

Livro desta matéria
“Bauru, uma outra história”, por Edson Fernandes (Editora Mireveja, 240 páginas). Disponível aqui.
P: O que Bauru ganha como sociedade ao encarar a sua história de frente, sem maquiagens?
R: “Ainda não sei o impacto do livro fora do círculo dos habituais leitores. Talvez não mude nada, mas penso que conhecer a história do nosso lugar nos torna pessoas melhores, mais tolerantes com os outros, mais críticas com nossos governantes e mais solidárias com os mais necessitados. Quero acreditar que estou contribuindo, ainda que pouco, para isso”.
P: Você almeja ou vê potencial para que essa “outra história” chegue às salas de aula?
R: “Sim, inclusive porque sou chamado para as escolas, em bate-papo com professores e alunos, além de círculos de leitura e estudos. Levo meu material e deixo à disposição das pessoas. Procuro popularizar a história da cidade e região. Penso que isso é uma contrapartida, afinal, quase todos os meus livros foram publicados a partir de editais, ou seja, dinheiro público no todo ou em parte”.
P: Quanto tempo durou esse trabalho e qual foi o maior desafio técnico que você enfrentou para cruzar esses dados?
R: “Coleto informações há mais de 20 anos. Então, quando tenho material suficiente para um livro ou capítulo, ponho mãos à obra. Vale lembrar que o mais difícil, no meu caso, não é escrever, mas viabilizar a publicação. Daí a importância dos editais. Um desafio é localizar fontes que permitam dar mais detalhes sobre um fato. Por exemplo, nesse livro há um capítulo sobre uma escola de tendência anarquista que existiu em Bauru na década de 1910, e só isso já seria motivo para um livro à parte. Fui procurar uma lista de chamada para saber quem eram os alunos, mas o prédio que abrigou a escola por um tempo sofreu um incêndio parcial que transformou em cinzas todos os papéis antigos. Ou seja, há a necessidade de buscar fontes paralelas e montar um quadro da situação, com todas as lacunas existentes. Um livro de história nunca será definitivo, sei que um dia alguém contará essa história a partir de onde eu deixei. Outra dificuldade é o acesso a fontes que estão, por exemplo, no Arquivo Público do Estado de São Paulo e ainda não foram digitalizadas. Há ainda o deslocamento, os custos da viagem, da hospedagem…”
P: Em uma visão mais pessoal, o que este livro significa para você?
R: “A satisfação de saber que algumas pessoas vão lê-lo e pensar “puxa, não sabia disso!”. ■ (Juliana Neves, em contribuição especial p/ ZACH).