◉Atualizado em 06/08/2026 · 10:53 (BRT)
Enfrentando riscos, tentativas de censura e as convenções vigentes, a abordagem de vivências dissidentes na literatura rompeu as entrelinhas e chegou ao centro da narrativa. Para quem busca entender esse processo através das décadas, ou se reconhecer nas páginas de um livro, vale revisitar o legado de James Baldwin, Christopher Isherwood, Mikhail Kuzmin e Anderson Herzer, e conhecer quem hoje mergulha nas discussões sobre identidade, desejo e pertencimento. Confira a lista a seguir:
Asas (Mikhail Kuzmin) Lançado em 1906, o romance é considerado um marco literário por ser o primeiro registro de uma obra russa, e uma das pioneiras na literatura mundial, a abordar o amor homoerótico sem culpa nem eufemismos. A narrativa relata a aceitação da homossexualidade e rompe tabus décadas antes de a cultura ocidental atingir abertura similar, refletindo o anseio por liberdade individual da época. Nos últimos anos, a obra recebeu sua primeira tradução para o português no Brasil, publicada pela editora Carambaia, um resgate desse registro vital.
O quarto de Giovanni (James Baldwin)
Obra essencial da literatura norte-americana do século XX, enfrentou grandes barreiras para ser publicada por conta da abordagem de uma relação homossexual. A trama acompanha um americano em Paris que vive o conflito entre o desejo por outro homem e o pavor de assumir sua identidade diante de uma sociedade preconceituosa. Desde o lançamento, em 1956, o impacto da obra consolidou James Baldwin não só como romancista, mas como uma das vozes intelectuais mais potentes na denúncia da homofobia, do racismo e de diversas injustiças sociais.
Um homem só (Christopher Isherwood)
Publicado em 1964, Isherwood apresenta mais do que um relato sobre uma relação dissidente. Ao acompanhar um dia na vida de um professor universitário que perdeu seu companheiro, o autor expõe a dor de uma perda que, na época, sequer possuía reconhecimento social ou espaço para ser manifestada. Numa narrativa sensível que humaniza a profunda solidão e a resistência num mundo hostil, Isherwood constrói uma reflexão profunda sobre invisibilidade e luto.
A queda para o alto (Anderson Herzer)
Esta autobiografia, composta por prosa e poemas, registra a trajetória crua de Anderson Herzer, homem trans que viveu entre instituições como a Febem e o contexto político e social pós-ditadura. O diário de Herzer vai além de narrar episódios de violência física e maus-tratos sofridos dentro do aparato do Estado, também registra o desejo de encontrar acolhimento e refúgio, mesmo à beira da marginalidade. É a voz interrompida de um tempo em que as discussões sobre gênero apenas germinavam no Brasil, o que torna a obra um documento histórico fundamental.
Neca (Um romance bajubá) (Amara Moira)
Escrito inteiramente em bajubá, o código linguístico criado e utilizado pelas travestis, o romance acompanha a jornada de uma mulher trans na prostituição, entre o Brasil e a Europa. Amara Moira se atreve a entrelaçar a linguagem que essa comunidade criou para si, as vivências dissidentes e o próprio fazer literário. O resultado é uma narrativa de humor afiado, sagaz e às vezes ácido, que transforma a subversão da norma gramatical numa ferramenta de afirmação para existências marginalizadas.
As Malditas (Camila Sosa Villada) O romance, que alçou Camila Sosa Villada a referência na escrita literária latino-americana contemporânea, acompanha a trajetória de uma travesti desde a infância. A obra mistura realismo mágico e crueza num só fôlego, ao seguir esse percurso do interior argentino até a vivência coletiva no Parque Sarmiento, em Córdoba, onde um grupo de travestis constrói entre si uma família fora dos moldes tradicionais. A escrita de Camila Sosa Villada elabora um corpo a corpo raro entre autora e narradora, o que a aproxima do universo de García Márquez e Roberto Bolaño. O resultado é um retrato potente sobre afeto, violência e resistência entre corpos trans. No Brasil, o livro foi lançado anteriormente sob o título “O Parque das Irmãs Magníficas”.
A Suíça (Jen Beagin) Nesta junção de thriller psicológico e sátira, Jen Beagin apresenta uma protagonista movida pela obsessão e pelo desejo de pertencer à vida alheia. Greta transcreve sessões de terapia e desenvolve uma fixação pela voz de uma paciente que nunca viu pessoalmente, a quem apelida de “a Suíça”. Um encontro casual num parque da cidade aproxima as duas, e a partir daí nasce um vínculo erguido sobre mentiras, capaz de mudar o rumo de ambas para sempre. A autora mistura humor ácido e crítica social, e usa esse tom irreverente para tratar de desejo, trauma e violência.