“O MST está na mira do agro, que deseja manter narrativa como modelo único de produção”

Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisa CPI do MST que está em tramitação no Congresso.
Boné do MST virou adereço cool nos últimos anos (Arte: Tiago de Moraes/ZACHPOST).
Boné do MST virou adereço cool nos últimos anos (Arte: Tiago de Moraes/ZACHPOST).

Atualizado em 05/04/2024 · 19:33 (BRT)

◎ OPINIÃO: Texto em que o autor defende ideias e chega a conclusões baseadas na sua interpretação dos fatos e dados ao seu dispor. Não reflete necessariamente os posicionamentos defendidos pela ZACHPOST.

Já fazia algum tempo que o MST não estava tão evidente na cena política como nessas últimas semanas. O intento da direita mais conservadora de, via Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criminalizar o movimento apoia-se na velha ladainha do direito à propriedade, mas esconde motivações originais e mais intricadas.   

Nos anos 1990, a legitimação da reforma agrária perante a sociedade forçou as elites agrárias a aceitar um pacto político de coexistência. Esse pacto instável e frágil manifestou-se institucionalmente na coexistência de dois ministérios, da Agricultura (MAPA) e do Desenvolvimento Agrário (MDA) e, no plano discursivo, na ideia posteriormente repetida à exaustão pelo presidente Lula, de que “há espaço para todos”, ou seja, para a agricultura familiar e para o agronegócio.

No entanto, a deposição da presidenta Dilma Rousseff revelou a fragilidade desse pacto. Logo em seguida, a extinção do MDA, como uma das primeiras ações de Temer, e o desmantelamento ativo das políticas para a agricultura familiar e para a reforma agrária pelo governo Bolsonaro, demonstraram que estava em curso um reposicionamento mais radical das forças e ideias políticas.  

Antes mesmo disso acontecer, o agro (ocultando o negócio) já havia se lançado na defesa de uma velha narrativa: a de “uma única agricultura”, segundo a qual todos os agricultores fazem parte deste setor (e não mais grupo político) fundamental para a economia brasileira. Com um tom populista e autoritário, que apela para a unidade de um “povo” (o povo do agro) contra um inimigo que precisa ser eliminado (todos que impedem o progresso da agricultura), o agro conseguiu inclusive incorporar a parcela mais conservadora da agricultura familiar e, com o apoio dela, eleger e sustentar Bolsonaro. 

Os movimentos sociais passaram a ser criminalizados e perseguidos. O próprio MST escolheu limitar seu repertório de ações públicas para evitar uma escalada da violência contra os agricultores. As ocupações deram espaço a estratégias de resistência cotidiana, as quais voltaram-se a ampliar o acesso da população mais pobre a alimentos saudáveis por meio de novos canais de distribuição de alimentos (cooperativas, armazéns, feiras livres, doações, cozinhas solidárias, entre outros). 

Apesar da sua força, a narrativa do agro não foi suficiente para impedir o retorno de Lula à presidência e, com ele, a reconstrução das condições democráticas para que os movimentos sociais voltassem às ruas para pressionar o governo. As ocupações do Abril Vermelho foram a face mais visível desse processo e se tornaram a desculpa que o agro necessitava. No entanto, a CPI do MST, que está em discussão no Congresso, tem uma motivação mais profunda e está associada à própria incapacidade que o agro demonstrou de dar respostas à grave crise de insegurança alimentar que afeta as famílias mais pobres. 

Perante a sociedade, o que legitima a reforma agrária atualmente é o fato de que os movimentos orientados pela agroecologia e pela segurança e soberania alimentar, tais como o MST, tem sido crescentemente reconhecidos pelas alternativas mais inovadoras de combate à fome e de construção de sistemas alimentares sustentáveis, saudáveis e justos. 

Essas alternativas estão agora em cima da mesa do governo e podem, se bem ajustadas, orientar a construção de uma nova geração de políticas alimentares. Assim como aconteceu com o Programa de Aquisição de Alimentos, criado em 2003, essas políticas legitimarão a existência de outras formas de fazer agricultura, de um mundo rural mais plural e diverso, além da própria ação do Estado na construção de mercados. Tudo isso assombra os homens do agro. 

A nova tentativa de criminalizar o MST, de colocá-lo na mira, não se deve às ocupações de terra, mas a algo muito mais profundo: o questionamento ao agro enquanto narrativa que sustenta um modelo único de agricultura e sistema alimentar. 

O MST deve se preocupar com o desenrolar desse processo porque o relator e o presidente da CPI estarão dispostos a passar a boiada sobre a constituição. Mas a parcela pop e tech do agro também precisa estar atenta porque a escalada dos conflitos políticos fará a CPI se tornar um tiro pela culatra para seus negócios. O governo, por sua vez, necessita construir um novo pacto, mas, para isso, precisará convencer o agro a cortar na própria carne, separar o joio do trigo, isolar sua ala mais conservadora e autoritária. Sem isso, não haverá pacto, haverá luta.


Paulo Niederle é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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